Gilles Deleuze
por Enrique Landgrave
... linhas de fuga - devir - imanência - repetição - singularidade - corpo sem órgãos - sentido - plano - multiplicidades - diferença - sensações - arte - máquinas desejantes - intensidades - máquinas de guerra fluxos - rizoma - abecedário - hecceidades - escrileituras - educação - vida - literatura - performance ...

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Deleuze e o amor



Que bom quando alguém diz pra gente, você está doida, doida de amor... louquinha, doidinha, maluquinha!!! É assim que me desconstruo, que saio dos trilhos persecutórios onde o trem do sistema passa, formatando, aniquilando as sensações, despejando um falso juízo sobre nós mesmos, para mostrar que o que vale é a merda que ele destila. Mas eu não consigo ser atingida, porque sou uma lobanociopelavida.

Tânia Marques 27/02/2012

Provocações I - Um Convite à Filosofia da Diferença

Fui convidado a participar deste espaço dedicado ao pensamento do filósofo francês Gilles Deleuze (1925-1995); filósofo, aliás, com o qual procuro agenciar de formas as mais inusitadas e que está sempre, com sua violência, disposto a me (re)-lançar à ignorância – àquela ignorância da qual necessitamos e que deve nos acompanhar se queremos escrever, ainda que uma única linha quebrada; “suprir a ignorância é transferir a escrita para depois, ou melhor, torná-la impossível” (DELEUZE, 2006, p. 18). É uma nova noção de ignorância. Uma ignorância sem má-consciência (“Eu sou ignorante, o que eu faço?”), positiva e afirmativa. Não é a ignorância da falta e da imobilidade - não saber escrever, não saber ler, não saber pintar, não saber cantar etc. -; a ignorância como condição de possibilidade da escrita. A princípio, tratar-se-ia de enviar alguns escritos sobre a Filosofia da Diferença, para que então eles fossem expostos aqui no Blog, mas decidi... decidi fazer algo um pouco diferente, decidi escrever um texto inaugural, de certa forma inédito, para ocupar duas funções muito precisas: 1) como agradecimento pelo amável convite feito pela Tânia Marques, com a qual compartilho o amor pelo filósofo (agradeço a confiança em meu pensamento, em minha escrita singela); 2) ele seria também como um “olá!” muito especial – um “olá!” propriamente filosófico, pelo qual eu não apresentaria a minha pessoa; isso é horrendo e tedioso, – Deleuze diz, e com razão: “é uma catástrofe os encontros com pessoas” -, mas os devires que compõem o meu pensar.

Diferença e repetição é, talvez, um dos mais belos livros da história da filosofia, um livro grave e alegre, no qual se agitam questões sem as quais não pensaríamos o contemporâneo de maneira efetiva, isto é, segundo suas forças próprias. Ele põe em xeque regimes de signos muito variados e propõe, à maneira de Nietzsche, uma transvaloração de todos os valores – no caso, os valores da representação. Mas perguntarão alguns: como fazer deste livro um manual para a ação política? Como aplicá-lo a uma situação concreta? Isso é muito importante, principalmente pelo fato de Deleuze evocar, como Espinosa, a experimentação em detrimento da teoria. Meu professor, numa aula esclarecedora sobre a filosofia da Diferença, perguntou aos alunos: como fazer política – e levantou o Diferença e repetição, para que os alunos o vissem – com isto? Como fazer uma ética com isto? Uma pergunta estarrecedora, sobretudo para um deleuzeano como eu. Na hora, eu não respondi, apenas observei, com atenção quase religiosa. Não era uma objeção, e eu sabia muito bem disso. Logo depois ele começou a explicar como que, para Deleuze, é no campo da Estética que tudo acontece e as lutas se decidem; o que rendeu uma aprazível conversa no intervalo da aula.

Muitos dirão que Diferença e repetição é ainda um livro demasiado duro, que não conseguimos ler sem enlouquecer - ou quase. Com efeito, Deleuze mesmo confessa que se trata de um livro carregado pela cultura academicista. Ma ele dá testemunho, a despeito de sua dificuldade, de uma louca criação de conceitos pouco vista na história da filosofia. Eles saltam, aqui e ali, e daí provém sua riqueza filosófica, que não é abstrata, nem pedante, nem verborrágica, como querem fazer parecer alguns “críticos severos”. Mas voltemos à nossa questão. O que fazer com ele? Como responder, a partir do que nele está escrito, ao intolerável do nosso tempo? São questões necessariamente ligadas aos nossos anseios, às singularidades que nos constitui, hoje, com tudo o que nos acontece, de bom e de ruim e que nos imprime a sua marca. O que é o tráfico, a favela, a violência progressiva da sociedade brasileira, a corrupção estatal; os protestos da USP, dos policiais na Bahia, dos professores do ensino público; a torpeza intelectual, a pobreza da nossa cultura, as vidas vampirizadas pelo capital; a violência policial no Largo da Ordem no pré-carnaval deste ano, a greve dos cobradores de ônibus e as negligências da URBS etc.? Em suma, o que é pensar a diferença, hoje, a partir de todas as questões que nos desassossegam e que nos forçam a pensar?

Primeiro, é preciso entender o que é a diferença da qual Deleuze fala. Não podemos confundi-la com a diferença da qual nos fala a mídia e nossos políticos empenhados na tolerância – uma fórmula vazia, afinal, que se faz em nome do princípio da identidade e emperra os agenciamentos – e na diversidade – politicamente envolvida com a identidade. Ora, Deleuze já nos esclarece que a diferença não é o diverso: “O diverso é o dado. Mas a diferencia é aquilo pelo qual o dado é dado. É aquilo pelo qual o dado é dado como diverso” (DELEUZE, 2006, p. 313). Afirma-se constantemente uma identidade entre diferença e diversidade, o que não é verdade para Deleuze. A diferença não depende da diversidade e de sua manutenção, é o diverso que depende da diferença como aquilo pelo qual o diverso é produzido enquanto tal. Não é à toa que Deleuze, ao definir a tendência, diz: é aquilo que difere de si mesmo. A diferença, aí, não é entre duas tendências – aí, sim, poderíamos falar em diversidade - mas a diferença de uma tendência para consigo. Se fosse de outro modo, só poderíamos pensar numa diferença meramente extrínseca. A diferença da qual Deleuze se vale tem mais a ver com as metamorfoses dionisíacas do que com um discurso em favor de uma diversidade identitária, que propaga uma diferença meramente extrínseca e que não alcança o cerne da questão. Dir-se-á, por exemplo, que o homossexual é diferente do heterossexual. Ora, é uma diferença extrínseca entre dois termos: de um lado o “homossexual” e do outro o “heterossexual”. Do mesmo modo cada termo responde à identidade que lhe assegura uma fixidez capaz de garantir a diversificação. Não é isso que Deleuze pretende, uma vez que ele mesmo afirma não haver um ou dois sexos, mas n sexos, fazendo explodir toda forma de identidade.

Segundo, é possível uma interpretação não-filosófica de Diferença e repetição? Deleuze sempre ratificou a importância de uma compreensão não-filosófica da filosofia. Entretanto, não era ingênuo o bastante para achar que isso seria sempre possível. Um Kant, diz ele, talvez não dispusesse de uma leitura não-filosófica, não por falta de leitores, mas por sem impossível fazê-la no seu caso. Eu ainda acrescentaria um Hegel, uma vez que, pelo menos para mim, a Fenomenologia do Espírito permanece sendo um livro impossível de ser lido sem um olhar propriamente filosófico. Ao contrário, ele afirma que tanto Espinosa quanto Nietzsche poderiam ser lidos por qualquer um. Um camponês, por exemplo. E Diferença e repetição? Ele poderia ser lido por qualquer um? Ou seria ele objeto de especialistas, de filósofos profissionais? Um esquizofrênico, um cientista, um literato, um pintor, um músico, ou, ainda, um operário, poderia lê-lo e dele extrair algo que funcione? Como ultrapassar o pesadume universitário da obra sem, no entanto, reduzi-la, depená-la, estragá-la? Como fazer uma leitura por afetos e por perceptos? Uma leitura que, é certo, não desconsidera os movimentos insólitos do conceito. Ler Diferença e Repetição pela primeira vez, e sem qualquer respaldo acadêmico, é assustador. Lembro-me de tê-lo lido e me perguntado, tremendamente assustado: “o que eu faço com isso?”. É, sem dúvida, um livro intimidante a qualquer leitor incauto. Eu era um leitor incauto. Saíra da leitura suave do Diálogos direto para Diferença e repetição.

Nós, leitores de Deleuze, não podemos nos furtar de tais questões referentes à funcionalidade de seus escritos, pois é aí que se decide a efetividade de sua filosofia. É certo, porém, que não se trata de reduzi-lo a opiniões otimistas ou pessimistas. Ora, há ainda muito trabalho. Apesar de uma obra volumosa, Diferença e repetição é apenas um esboço, ou, o aceno para um pensamento não-representativo, que não se sabe se virá, se já veio ou se já foi. A filosofia da Diferença está ainda por se fazer, é Deleuze quem diz: liberem o simulacro, acreditem na força do simulacro, a despeito de todas as objeções. É como um desafio. As cartas estão dadas e nada ainda fora decidido. Não adianta dizer que não dá para pensar fora da caixinha da representação, é simplesmente risível, pois a questão é outra, se passa noutro lugar: como fazer isso? Como resgatar a diferença? Como fazê-la falar por si? É como um colega dissera num dos encontros do Grupo de Estudos Deleuze: “Deleuze não cai tão fácil, ele tem as suas armas”. Quais são? E como fabricar nossas próprias armas? É a questão das linhas de fuga ativas, que define – como observa Zourabichvili - a orientação prática da filosofia deleuzeana. Sobre o ato de resistência, Deleuze disse tudo: “não cabe temer ou esperar, mas buscar novas armas” (DELEUZE, 1992, p. 220).

Vale ainda pensar a filosofia da Diferença pelo prisma do pós-modernismo. Sim, é um nome terrível, que gera muitas polêmicas e desagrados; os deleuzeanos sabem muito bem que Deleuze nunca se sentiu confortável com esse termo. Pélbart conta que Deleuze abandonara o seu conceito de simulacro devido à apropriação indevida que o pós-modernismo fizera dele. Com isso, ele esperava desfazer os mal entendidos com sua filosofia. É certo, contudo, que não foi o bastante. Ainda hoje se tenta pensar a filosofia da Diferença como mais um modismo pós-moderno. Cedo ou tarde, os deleuzeanos vão se deparar com esse problema. O pós-modernismo vampiriza as filosofias com que tem contato. Não é diferente no caso de Deleuze. Ora, o que resta do conceito de simulacro deleuzeano após a apropriação do pós-modernismo? Ele o encerra na negatividade. O pós-modernismo é a chaga do pensamento contemporâneo, não por recusar a tradição, mas por mergulhar na indiferença filosofias tão distintas. Diz-se constantemente que o pós-modernismo é o mais recém formato de niilismo, todavia, a filosofia da Diferença nada tem a ver com niilismo. Nietzsche grita nos textos deleuzeanos: isto não é niilismo! Mas, afinal, o que está acontecendo? E como frear essa despotencialização do pensamento?

Muita coisa está no ar. Não é de propósito que encerro este texto sem uma resposta, sem uma explicação do ponto de vista do conceito, sem, outrossim, uma proposta de ação e de luta específicas – quem dera a política fosse tão simples! Meu propósito foi o de provocar, qual quer coisa, por menor que fosse, nos meus leitores. Um provocador, é o que sou: mas não se provoca pessoas, provoca-se o pensamento. E como escrito inaugural – creio eu – ele não poderia ir muito longe. Seria preciso outros textos para o aprofundamento das questões aqui postas. Quis, também, preparar o solo para minhas próximas apresentações, fazer algumas marcações, estabelecer alguns vetores, para tornar o movimento possível. Depois das desterritorializações vêm as reterritorializações, que nos permitem amar, falar, sentir, pensar – no meu caso, aqui: escrever. Agradeço, uma vez mais, pela confiança depositada em minhas potências, potências das quais até mesmo eu suspeito. Ao mesmo tempo, agradeço pela chance de enfrentar minha fobia social, pois se trata, aqui, de me lançar num território estranho, que nada me dá previamente e que exige de mim toda uma experimentação, uma coragem e um pouco de loucura. E para finalizar, uma citação de Diferença e repetição:

“O simulacro é o verdadeiro caráter ou a forma do que é – “o ente” – quando o eterno retorno é a potência do ser (o informal). Quando a identidade das coisas é dissolvida, o ser escapa, atinge a univocidade e se põe a girar em torno do diferente. O que é ou retorna não tem qualquer identidade prévia e constituída: a coisa é reduzida á diferença que a esquarteja e a todas as diferenças implicadas nesta e pelas quais ela passa. É neste sentido que o simulacro é o próprio símbolo, isto é, o símbolo na medida em que ele interioriza as condições de sua própria repetição.” O simulacro apreendeu uma disparidade constituinte na coisa que ele destituiu do lugar do modelo.” (DELEUZE, 2006, p. 106)

                                          Raony Francisco Moraes 

                                UFPR - Universidade Federal do Paraná

Bibliografia:

DELEUZE, G. Conversações. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1992.
DELEUZE, G. Diferença e repetição. Rio de Janeiro: Ed. Graal, 2ª edição, 2006.

poema deleuzeano

Paul Klee, Highway and Byways (1929)
Oil on canvas, 32 5/8 x 26 3/8
Pensamento sem imagem
Anarquia mental
Libertação total
de paradigmas territoriais
Palavras, textos, obras
falando por si só
a estética do nonsense
para dar significado
àquilo que nos amarra
que aprisiona as nossas singularidades
Nasce um poema deleuzeano
longe do lugar-comum
pois a criação
é uma nova possibilidade
de vida não-fascista
sem rótulos
sem marcas
sem estéticas corrompidas
o imprevisível
o intempestivo
surgindo para engendrar
uma beleza que não esteja subjugada ao poder
Milhões de incertezas brotando
Para fazer a diferença das diferenças
Luta filosófica ferrenha
entre palavras e sentidos
Eis um poema deleuzeano...

Tânia Marques 12/07/09

Filosofia, ciência e arte

"Filosofia, ciência e arte são planos irredutíveis, mas podem ser explorados segundo uma mesma estratégia; às três instâncias da instauração filosófica, corresponderão instâncias simétricas da instauração artística e científica: 'plano de imanência da filosofia, plano de composição da arte, plano de referência ou de coordenação da ciência; forma do conceito, força da sensação, função de conhecimento; conceitos e personagens conceituais, sensações e figuras estéticas, funções e observadores parciais'."

Bento Prado Jr. (Tradutor)

Fonte:
http://pt.scribd.com/doc/6985818/Gilles-Deleuze-Felix-Guattari-O-QUE-E-FILOSOFIA
O que é Filosofia? Gilles Deleuze e Felix Guattari
Fonte da imagem:

Gilles Deleuze – Una vida filosófica
gambiarre.org
 

Zeitgeist 2 Addendum Legendado

frestas: narrativas dos estados moleculares


alguém que passa... despassa 
pinta 
papel 
parede 
a face 
pensa 
na mácula suave... 
das tintas 
nuanças 
rudimentos 
laivos 
tons 
sobre o contaminado... 
imprime 
força 
intensidade 
acontecimento 
nas ações 
nas fabulações 
que rompem... 
com o imaginado antes



Tânia Marques  09/12/2011

The Wayseer Manifesto - Visionários do Caminho



Fonte: YouTube

Íntegra: Deleuze e música – Sílvio Ferraz » cpfl cultura

Íntegra: Deleuze e música – Silvio Ferraz » cpfl cultura

ausência

grotescas simbologias
redemoinho de palavras
de cores
de traços
de trapos
ambivalência
desterritorialização de sentimentos
confusão
caos niilista
envolvimento sinuoso
fuga do centro
poesia eclética
perfumes
interpretações
criações
subjetividades
transcendências fugazes
voláteis
a vida escorre
na minha ausência


Tânia Marques 28/09/2011

Imagem:
Head VI
1949 (290 Kb); Oil on canvas, 93.2 x 76.5 cm (36 5/8 x 30 1/8 in); Arts Council of Great Britain, London

tempo: imensurável


do jeito que eu olho, a vida vem sem início e sem fim, atravessada pela luz do sol, pela cor das flores e pela escuridão da noite; por um tempo onde o seu limite é a nossa consciência e não um calendário forjado para demarcar datas. desmarquemos o tempo do relógio, desmarquemos todos os instrumentos que indicam medição, inclusive as provas escolares, inclusive a nossa rotina biológica, inclusive o nosso pontual sorriso sem graça. desmarquemos os territórios demarcados, pois tudo é de todos, a vida, o sol, a lua, o amor e o sul. o "norte" que me guia é o sul, viremos os mapas de cabeça para baixo, chega de submissão ao hemisfério de cima. construamos linhas de fuga para a alegria, para a liberdade de ser como somos, nunca esquecendo de lembrar: quem dá as projeções cartográficas do mundo, da vida e do nosso corpo somos nós.

Tânia Marques   15 de setembro de 2011.

Fonte da imagem: 

A ilha

Eu espero horas nesse lugar
Que lugar?
Ainda não sei quanto tempo
Eu posso esperar...
É dia, é noite, é sol, é mar,
Mas ainda é preciso esperar...
Esperar o quê?
O desejo, o sonho, a festa, o sucesso?
Para aonde vai nos levar essa nuvem de progresso?
Esperar, esperar...
Entra chuva, brisa, calor, frio e vento,
E eu continuo a esperar...
Sai arco-íris, neve, tempestade...
Entra e sai até a felicidade, e ainda
Preciso esperar,
Espero, espero, espero,
Passa o céu, o luar, as ondas
E os planetas,
Passa pássaros, estrelas e os cometas,
Mas ainda preciso esperar,
Esperar por quê?
Tem fogueira, conversa, riso, choro,
Sexo e amor,
Mas, e essa espera que não termina?
Ela me acolhe e fascina!
Tem dança, tem crença, tem saúde, tem doença
Tem chão, fogo, rosa e azul,
Tem cultura, e essa espera não tem
Censura!
Espera, espera, espera aí...
Espera garota, espera guri,
Será que alguém me espera?
Toca o sino, toca o hino
Dim, Dom, Dim, Dom
Estalo, barulho, cantoria
E quem escuta a melodia?
Ninguém espera...?
Abre a porta, abre a jenela,
Tem horizonte, tem aquarela,
Tem som, tem batida,
E a vida, ninguém espera?
Sacode, balança, se vira do avesso...
Será que eu não te conheço
Nas andanças, cirandas, nas brincadeiras de
Criança,
Espera, ainda há
Uma última lembrança,
Hum, quem, onde?
Em qual lugar?
E persiste esse tum tum tum
Cantando que eu preciso esperar,
Esperar o quê?
Não sei, talvez alguém
Ainda esteja para chegar!

Elisa Riffel Pacheco

Fonte da imagem: http://fredwiliam.blogspot.com/2011/07/ilha-dos-sentimentos.html
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Plano de composição


Instrumentos seguem planos sonoros
Planos de imanência
Improvisações
Ordenação lado a lado
Clave-de-sol cortando o caos
Sensações
Estilo em dó-ritornelo-maior
Intensidades
Batucadas coloridas
Arte que produz efeitos sinestésicos
Escritartística sem planejamento prévio
Sons que desbravam a alma
Planos que transdançam coloridos
Em um coração pulsante

Tânia Marques 01/09/2011

Fonte da imagem: abrancoalmeida.com

O vazio

- Onde está esse vazio que imprime teorias, gestos e sensações?
- Não sei, você conhece esse vazio, que insiste em se musicar no silêncio?
- E se conheço...? Eu apenas espero, dialogo com o vazio que procura ritmos e batucadas para fazer dançar a sua festa.
- Então, torna verdadeira essa espera, esse silêncio oculto, que ocupa o palco e brinca com a sinfonia do amanhã?
- O que faço eu, senão ecoar para esse vazio, que mexe com minha voz, meu corpo e intensidade. Eu espero ser esse ator que está sempre em busca de movimento e de liberdade.
- Responda-me, e o vazio, porque o vazio?
- Talvez seja este vazio que me desloca para a sensação, para a pintura da imagem.
- Para a arte?
- Talvez na criação, na originalidade de apenas criar uma nova ficção.
- Será que alguém sabe me falar, contar, cantar ou ao menos bocejar onde fica este vazio?
- Espera, apenas aprecie o universo e conte as estrelas.

Elisa Riffel Pacheco
Fonte da imagem: perito.med.br

A viagem

Uma noite
Nessa estrada
Mais uma jornada
Novamente
Abandono minha casa
Carros voam como o vento
Hoje, quase aconteceu
Um atropelamento
Penso na vida
Nos maus e bons momentos
Noite quente, enluarada
Estou exausta, cansada
Dirigindo mais uma vez
Nessa velha estrada
Ao som dos insetos
Reflito:
O que é errado,
O que é certo?
Perco-me em meu pensamento
Escuto buzinas
Meio sonolenta
Imaginei ter visto minha menina
Bela dançarina
Que bailava ao ritmo das cantigas
Coração doce, face serena
Minha grande amiga, minha pequena!
Desperto à luz do farol
Lembranças vão e vêm
Assim como o nascer e o pôr do sol
Continuo na estrada,
Agora, bem acordada
Pensei ter visto um vulto
Grito, levo um susto!
Que piada, não era nada!
Abro o vidro,
Sinto no rosto o vento da madrugada
Contemplo a lua, noite linda
Muito estrelada
De repente,
Estaciono o carro
Paro em uma pousada
Maloca velha, toda quebrada
Não reclamo...
Durmo tranqüila,
Sonhando com minha chegada
Pé no asfalto
Nossa, como é difícil
Dirigir de salto alto
Estou chegando...
Aonde?
Sem destino
Continuo procurando...
O combustível está acabando,
Meu tempo está se cessando
Avisto um posto de gasolina
Enquanto o tanque abastece
Descanso, faço um lanche na cantina
Lentamente, vou me espreguiçando
Desço do carro,
Ascendo um cigarro
Fico fumando
Minha viagem
Está terminando ou
Recém começando?
Continuo meu caminho
Com dores, amores, flores e espinhos
Minha vida é uma eterna charada
Sigo em frente, dou uma leve risada...
Elisa Riffel Pacheco
Fonte da imagem: wcams.com.br

Resenha: Espiritografias de co-criação dialógica

Há um espaço, um suspiro, uma dimensão para se escrever, para cantar, para libertar o imaginar. Um espaço que repete palavras, cores, linhas e sabores, e mistura ingredientes que integram uma mesma massa de diferentes escrileituras.  É desse componente, dessa química, que se descobre diversas formas, trajetos e culturas de ler a vida e o ser humano. Vivemos nesse cotidiano de experimentações, movimentos dialógicos que se transformam em histórias, poesias, e até mesmo em anagramas. Por que não reinventar-se? Quebrar modas e molduras e brincar de compor novas partituras? O que há no céu, no universo, no infinito ou embaixo da cama que poderia mover em si a criação? E essa batucada, des-sinfonia acelerada que cutuca o coração e contamina o corpo, o pensamento, nossa dança, nossa percepção. É essa arte, essa filosofia, que não tem uma definição prévia, nem teoria, pois vem da atuação, da espiritografia que compõe a nossa genética, a nossa poética. Apenas se brinca de contar e ouvir histórias, tangos e boleros. São essas músicas, versos, cenas e composições que dão margem, lugar as transcriações. Apenas escrevo, escrevo devagar, sem pensar, escrevo com improvisação, sem alegorias, sem me intimar. A escrita é esse diálogo, verso, grafia que me faz ir e voltar, que me faz sentir que cada vez que eu pisco os olhos, eu posso ser um personagem, estar em algum tempo, espaço ou lugar.  A espiritografia é essa viagem entre pirâmides, ruínas e cachoeiras, que oportuniza margens, miragens e maneiras para desenhar as pinturas da vida que ainda estão por ser inscritas, ditas ou circunscritas no silêncio. É nesse livro que se encontra o drama, a fantasia que por vezes se esconde nos labirintos, becos e alamedas de um caminho sem cor. E para dar a cor é preciso permitir-se sonhar, encorajar-se ao criativo, ao desconhecido, ao des-território adormecido. 
Elisa Riffel Pacheco

Contos Rizomáticos. Tecnologia do Blogger.
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