Gilles Deleuze
por Enrique Landgrave
... linhas de fuga - devir - imanência - repetição - singularidade - corpo sem órgãos - sentido - plano - multiplicidades - diferença - sensações - arte - máquinas desejantes - intensidades - máquinas de guerra fluxos - rizoma - abecedário - hecceidades - escrileituras - educação - vida - literatura - performance ...

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Árvore que venta

“Sou livre para o silêncio das formas e das cores”
   (Manoel de Barros)

Elisandro Rodrigues

No tempo que penso: brinco. Brincadeiras de colorir e inventar formas outras [de novos possíveis]. De ser malabarista de mim mesmo, jogando para o alto cores que se espalham ao cair no chão pintando mosaicos de silêncios e fl[d]ores. Brinco de ser livre correndo com os pés nas nuvens.
Vento para levantar as saias das meninas desavisadas, deixando as pernas encarnadas de poesia. [In]vento traquinagens feito meninomolequedeolhoscuriosos.
No silêncio penso no tempo que tenho para brincar.
  ÁRVORE QUE VENTA
Elisandro Rodrigues
                                                                    

NOS BROTOS DE 
                     UMA
                                   ÁRVORE
                     L
                 I
             N
            H
              A
                 S
                                   QUE
                    
                                DANÇAM
                                                
                                                  N
                                                        O
                         
                                                           SILÊNCIO

“Na poesia escrita [quem sabe na palavra escrita] um entre. Não uma placa com “neon” que quebra o silêncio preso ao azul[verde] dos olhos. Um entre que dança parado no ponto que não me reconheço. Uma fotografia que se movimenta de pés[descalços] no chão. Brotos que começam pelo meio. Um entre de linhas [de vidas] que se perdem [acham] nos muros cinzas de uma avenida movimentada. Corpos que dançam parados no meio da multidão. Riscos [linhas] de [in]visibilidade que [in]ventam um entre [pouco de possível].”
Elisandro Rodrigues

A arte me provoca

 Elisa Riffel Pacheco

Arte que me provoca,
Que mexe comigo, que bagunça
Meu jeito de ser, de pensar,
Que provoca meu pensamento,
Minha vida, minha
Direção e vocação.

Quando fiz este texto,
Esta poesia, eu senti
Desconstruía e construía
Algo dentro de mim
Na leitura, escrita
Vivência na arte
É algo que passa por mim,
Transita e percorre meu olhar
De ver e sentir a mim mesma e ao mundo
Que me cerca.
É poético, é criação, é imaginário, é intuitivo
Que carrega conteúdo psíquico
Que abre portas à formação estética e ética
Esse texto me traduz
Traduz um pouco de meu eu e das sensações
Que permito sentir e experimentar.

É como se eu tivesse sempre
A minha disposição uma enorme aquarela
Pintando a vida em cores diferentes
A cada vivência
A cada conhecimento
Que se vive
Que se aprende.
“Agora, aqui nesta sala, neste momento, eu me vejo e me sinto descrevendo minha escrita, como se eu fosse uma mutante que pudesse brincar, jogar com as cores em meu corpo, mudando de cor a cada estímulo, sensação ou provocação. Eu me chamo coreal por ter esta mutação. É como se eu tivesse uma aquarela dentro de mim.”
coreal: cor + real

A criança

Daiane Rodrigues

A criança tem em si a possibilidade de mudar, mudar sem se preocupar com a opinião alheia e mostrar-se curiosa diante destas mudanças. Assim como a criança é levada a aceitar as novidades impostas, o adulto passa por elas encarando-as de outra maneira.
O dia-a-dia de um adulto, criança, adolescente ou idoso, faz-se de ações que geram opiniões em si e nos outros, essas opiniões provocam outras ações que vão de encontro a esta primeira geradora e assim, acontecem os dias e se forma o cotidiano.
A criança não é diferente do adulto, contudo encontra formas mais brandas de resolver uma situação e as resolve com maior felicidade. Isto, na verdade, se tomado por todos nós, faria com que a vida e o cotidiano fosse mais leve.
Desta forma, é preciso crescer, levando consigo a capacidade de uma criança em PERMITIR-SE : errar, chorar, arrepender-se e não se importar tanto pois amanhã é um novo dia e nada será como hoje, nem ontem.

Evoluir e regressar
Criança, adulto, velho, sentir, viver, permitir-se

Daiane Rodrigues

A criança sente e mostra,
O adolescente sente, esconde e se esconde,
O adulto sente e precisa enfrentar,
O velho/idoso volta a ser criança sentindo e mostrando, fica como um adolescente se escondendo atrás de um “ser”e parecer infantil, em alguns momentos é adulto e resolve enfrentar. Contudo, na maior parte do tempo é assim... assado... tudo... nada...pode e faz. Ele se permite e acaba sendo capaz.

Vazio

Camila Dorneles
É no vazio que me completo
Que me transbordo
Que me encho
É no vazio, que encontro comigo mesma
Necessito do vazio, do afastamento, do isolamento.
No vazio que me encontro.
Será vazio?

Cem linguagens

Ana Iara Silva de Deus
Criança
Escola
Cultura
Privam-lhe
Mente e corpo
Pensar sem corpo
Agir sem cabeça
Sonhar
Imaginar
Primar
Maravilhar-se com o mundo:
Só na páscoa e no natal
Feita de cem
Cem e mais cem Linguagens.


INFÂNCIA, CRIANÇA.

Ana Iara Silva de Deus

Criança. Brincadeira, correria, imaginação.
Sonho, paixão, alegria, satisfação.
Criança, infância, emoção, brincadeira, conhecimento, realidade, contextos, não ilusão.

Criança, linguagem, corpo, imagem, sensação.
Criança, emoção, coração, vivencia, ludicidade e criação.

Criança, corpo, mente, emoção, intelecto e vibração.

Criança, descobrimento, experiência, surpresa e satisfação.
Criança, infância, brincadeira, conhecimento, realidade, contexto, não ilusão.

Painel Civilizatório

O Teatro Mágico - Camarada d'água


visagem caótica: uma co-produção

 Autor da imagem: Marcelo Petter de Vargas
 Estilista em confecção industrial e publicitário


moléculas ziguezagueando pela arte rompem o tempo e restauram desejos transreais, viajam sem direção preestabelecida com a vida. tentáculos delirantes são braços que se estendem sobre intensas variantes rizomáticas. a história despenca em linha reta e se espalha nos entre. entre linhas, rupturas e lisuras, o homem escorre pelos fatos gozados; entre poder, tirania e sacralização de conceitos perversos, o líquido vem. tudo vira dor, sacrifício em vão, quando não se percebe aquilo que infiltra os entres. o mundo se esgota no pessimismo, e a morte estabelece escalada pressentida para o nonsense; fugaz paixão pós-moderna que define sentimentos inúteis e amordaça cegamente o devir-arte libertária nos extremos da hipocrisia.

Autora do texto: Tânia Marques 18 de julho de 2011

 "Falo do excercício interminável que movimenta um carrossel de fragmentos, concepções e aprendizados artísticos não-convencionais dos quais tiro proveito." Marcelo Petter Vargas

O Teatro Mágico - Sonho de uma Flauta

um sopro de inspiração...

TEATRALIDADE HUMANA
Este é um vídeo pedagógico que tem por objetivo divulgar a Teatralidade Humana: conceito filosófico desenvolvido a partir da análise do corpo humano. São experimentações teatrais realizadas em laboratório. A pesquisa-intervenção está focada na potencialidade criativa e expressiva, na capacidade de adaptação e intercâmbio, bem como no conhecimento produzido pelo corpo. Um corpo que transforma o ambiente, relaciona-se com outros corpos. O objetivo das intervenções é fazer emergir outros modos de vida, novos valores... é uma tentativa de restaurar a dimensão artística do humano. Referenciais teóricos: Gilles Deleuze, Antonin Artaud, Augusto Boal e Felix Guattari.

rizoma

rizoma


O conceito de rizoma, inspirador deste portal, foi criado por Gilles Deleuze e Felix Guattari. Coloco abaixo alguns trechos do livro Mil Platôs, onde ambos desenvolvem esta interessante idéia.
Fonte:
Gilles Deleuze e Felix Guattari, Mil Platôs. Capitalismo e Esquizofrenia. Vol. 1, São Paulo, Editora 34, 1995. http://www.dossie_deleuze.blogger.com.br/
***
"Um rizoma não começa nem conclui, ele se encontra sempre no meio, entre as coisas, inter-ser, intermezzo. A árvore é filiação, mas o rizoma é aliança, unicamente aliança. A árvore impõe o verbo "ser", mas o rizoma tem como tecido a conjunção "e... e... e..." Há nesta conjunção força suficiente para sacudir e desenraizar o verbo ser. Entre as coisas não designa uma correlação localizável que vai de uma para outra e reciprocamente, mas uma direção perpendicular, um movimento transversal que as carrega uma e outra, riacho sem início nem fim, que rói suas duas margens e adquire velocidade no meio." (Capa do livro)
***
"1o e 2o - Princípios de conexão e de heterogeneidade: qualquer ponto de um rizoma pode ser conectado a qualquer outro e deve sê-lo. É muito diferente da árvore ou da raiz que fixam um ponto, uma ordem."
***
"Não existe locutor-auditor ideal, como também não existe comunidade linguística homogênea. A língua é, segundo uma fórmula de Weinreich, "uma realidade essencialmente heterogênea". Não existe uma língua-mãe, mas tomada de poder por uma língua dominante dentro de uma multiplicidade política. A língua se estabiliza em torno de uma paróquia, de um bispado, de uma capital. Ela faz bulbo. (...)
Uma língua não se fecha sobre si mesma senão em uma função de impotência."
***
"3º- Princípio de multiplicidade: é somente quando o múltiplo é efetivamente tratado como substantivo (...). As multiplicidades são rizomáticas e denunciam as pseudomultiplicidades arborescentes. (...) Uma multiplicidade não tem nem sujeito nem objeto, mas somente determinações, grandezas, dimensões que não podem crescer sem que mude de natureza (as leis de combinação crescem então com a multiplicidade). Os fios da marionete, considerados como rizoma ou multiplicidade, não remetem à vontade suposta una de um artista ou de um operador, mas à multiplicidade das fibras nervosas que formam por sua vez uma outra marionete seguindo outras dimensões conectadas às primeiras".
***
"Não existem pontos ou posições num rizoma como se encontra numa estrutura, numa árvore, numa raiz. Existem somente linhas. Quando Glenn Gould acelera a execução de uma passagem não age exclusivamente como virtuose; transforma os pontos musicais em linhas, faz proliferar o conjunto".
***
"4° - Princípio de ruptura a-significante: contra os cortes demasiado significantes que separam as estruturas, ou que atravessam uma estrutura. Um rizoma pode ser rompido, quebrado em um lugar qualquer, e também retoma segundo uma ou outra de suas linhas e segundo outras linhas. É impossível exterminar as formigas, porque elas formam um rizoma animal do qual a maior parte pode ser destruída sem que ele deixe de se reconstruir".
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"5o e 6o - Princípio de cartografia e de decalcomania: um rizoma não pode ser justificado por nenhum modelo estrutural ou gerativo. Ele é estranho a qualquer idéia de eixo genético ou de estrutura profunda."
***
"A árvore ou a raiz inspiram uma triste imagem do pensamento que não pára de imitar o múltiplo a partir de uma unidade superior, de centro ou de segmento. (...)
A estes sistemas centrados, os autores opõem sistemas a-centrados, redes de autômatos finitos, nos quais a comunicação se faz de um vizinho a um vizinho qualquer, onde as hastes ou canais não preexistem, nos quais os indivíduos são todos intercambiáveis, se definem somente por um estado a tal momento, de tal maneira que as operações locais se coordenam e o resultado final global se sincroniza independente de uma instância central."
***
"É curioso como a árvore dominou a realidade ocidental e todo o pensamento ocidental, da botânica à biologia, a anatomia, mas também a gnoseologia, a teologia, a ontologia, toda a filosofia...: o fundamento-raiz, Grund, roots e fundations. O Ocidente tem uma relação privilegiada com a floresta e com o desmatamento; os campos conquistados no lugar da floresta são povoados de plantas de grãos, objeto de uma cultura de linhagens, incidindo sobre a espécie e de tipo arborescente; a criação, por sua vez, desenvolvida em regime de alqueire, seleciona as linhagens que formam uma arborescência animal. O Oriente apresenta uma outra figura: a relação com a estepe e o jardim (em outros casos, o deserto e o oásis) em vez de uma relação com a floresta e o campo: uma cultura de tubérculos que procede por fragmentação do indivíduo; um afastamento, um pôr entre parênteses a criação confinada em espaços fechados ou relegada à estepe dos nômades.
Ocidente, agricultura de uma linhagem escolhida com muitos indivíduos variáveis; Oriente, horticultura de um pequeno número de indivíduos remetendo a uma grande gama de "clones". Não existiria no Oriente, notadamente na Oceania, algo como que um modelo rizomático que se opõe sob todos os aspectos ao modelo ocidental da árvore? Haudricourt vê aí uma razão da oposição entre as morais ou filosofias da transcendência, caras ao Ocidente, àquelas da imanência no Oriente: o Deus que semeia e que ceifa, por oposição ao Deus que pica e desenterra (picar contra semear15).
Transcendência, doença propriamente européia. E, de resto, não é a mesma música, a terra, não tem aí a mesma música. E também não é a mesma sexualidade: as plantas de grão, mesmo reunindo os dois sexos, submetem a sexualidade ao modelo da reprodução; o rizoma, ao contrário, é uma liberação da sexualidade, não somente em relação à reprodução, mas também em relação à genitalidade. No Ocidente a árvore plantou-se nos corpos, ela endureceu e estratificou até os sexos. Nós perdemos o rizoma ou a erva. Henry Miller: "A China é a erva daninha no canteiro de repolhos da humanidade (...). A erva daninha é a Nêmesis dos esforços humanos. Entre todas as existências imaginárias que nós atribuímos às plantas, aos animais e às estrelas, é talvez a erva daninha aquela que leva a vida mais sábia. É verdade que a erva não produz flores nem porta-aviões, nem Sermões sobre a montanha (...). Mas, afinal de contas, é sempre a erva quem diz a última palavra. Finalmente, tudo retorna ao estado de China. É isto que os historiadores chamam comumente de trevas da Idade Média. A única saída é a erva (...). A erva existe exclusivamente entre os grandes espaços não cultivados. Ela preenche os vazios. Ela cresce entre e no meio das outras coisas. A flor é bela, o repolho útil, a papoula enlouquece. Mas a erva é transbordamento, ela é uma lição de moral."
***
"Um impasse, tanto melhor. Se se trata de mostrar que os rizomas têm também seu próprio despotismo, sua própria hierarquia, mais duros ainda, muito bem, porque não existe dualismo, não existe dualismo ontológicoaqui e ali, não existe dualismo axiológico do bom e do mau, nem mistura ou síntese americana."
***

Não se sabe

Não se sabe...
Sandra Corazza

Não se sabe se a sua vida consiste numa existência individual; se a sua natureza consiste num fato biológico; ou se a sua cultura consiste num modo de ser social. Não há indicações a respeito, a não ser que, de jeito algum, trata-se de um animal rationale ou de uma imago Dei. Até que um outro – mundo possível? – chegasse, foi identificado à existência primordial. Em função de tal proveniência, através dos tempos, foi considerado como o humano em geral. E, só muito recentemente, viu-se que a sua ação transcorre de forma selvagemente sentida; logo, na antípoda do que é entendido por humano. Pluralidade de forças em permanente tensão, o seu movimento estabelece hierarquias temporárias. Pensamentos, sentimentos e impulsos encontram-se em luta, mas também seus tecidos, órgãos e células. Atua contra sentidos estabelecidos, normas coercitivas, querer divino, ídolos axiológicos da moral, arrière-monde. Opera, antes de tudo, contra a morte. Não visa objetivos, não admite tréguas, não prevê fim. A partir do combate incessante, surgem forças dominantes, que o fazem agir, e forças dominadas, que o levam a reagir. São essas forças que constituem sua vida, natureza e cultura. Sendo um fora-da-lei, fora-do-contrato, fora-da-instituição, tem retiradas as possibilidades dos seus instintos atuarem, quando fica encerrado no âmbito da Família, do Édipo, da Escola, do Estado, dos Direitos Humanos, da Paz. Então, esses instintos voltam-se contra si mesmos e o seu desenvolvimento ruma para o espírito de gregariedade: mediano, vulgar. Ao lutar contra a desvalorização dos instintos estéticos – tanto apolíneos como dionisíacos – pela razão, é um rebelde, em face do saber consciente que diminui sua sabedoria instintiva. Em seu querer, o sentir e o pensar encontram-se imbricados e o pensamento disseminado pelo corpo. Ao articular vida e pensamento, faz experiências com todas as coisas, sobretudo consigo mesmo. Detesta o preceito Tudo o que é belo é racional e nunca subordina a poesia à lógica, por considerar que os instintos vitais é que constituem sua força afirmativo-criativa. Aliando tal força à hipertrofia da consciência e da memória, esquece. Para sentir alegria, leveza, esperança, orgulho, basta-lhe a inconsciência salutar associada ao esquecimento. Instalado no limiar do instante, apaga lembranças, já que sem esquecer não age e não vive. Nas relações com o meio, a superficialidade é um dos seus traços marcantes e até mesmo definidor. Possui a pretensão de saber como suas ações são produzidas, mesmo que elas nunca sejam o que lhe parecem ser. Mostra-se, por vezes, como uma unidade, forma mais alta, suprema espécie de ser, progresso da consciência, conhecimento absoluto, critério superior de valor; embora seja apenas conjunturalmente utilizável para a manutenção da vida em grupo. Nos conceitos, gêneros, espécies, categorias, sistemas, encontra somente anseios e necessidades humanas de sobrevivência. Assim, desmascara as ilusões das ciências humanas e sociais, da religião e da moral, mostrando que elas são sintomas de um regime utilitário do agir. Sintomas que introduzem sentidos e atribuem fixidez a seu desregramento instintual. Necessário, assegura a própria existência, na medida em que se dota de um caráter simplificador. Faz-se inteligível, ao tomar consciência de si, em relação com a comunidade. Deixa, portanto, de ser incomparável, único, ilimitadamente singular, para ir se tornando confiável e constante, raso e ralo, generalizado e indeterminado, simétrico e estúpido, falsificável e traduzível na perspectiva do rebanho. Dobrando-se a tudo o que é altivo, conquistador, dominador, torna-se brando e tranqüilo, fazendo de si uma permanência na mudança. Como rede de ligação entre os humanos, equivale à regularidade dos costumes, alma, espírito, essência, sujeito, agente, objeto, causa, efeito, substrato, ser, razão, consciência, verdade, Eu. Sua moralidade define-se pela capacidade de obedecer a leis, cujo referencial regulador encontra-se na tradição, tida como autoridade superior, à qual obedece – não porque ela lhe manda fazer algo, mas simplesmente porque ela manda. Adestrado, conceitualiza pela identificação de dessemelhantes; pensa as coisas mais simples do que são; e responsabiliza- se por suas ações, incluindo o ato de pensar. Desse modo, serve aos fracos, às almas iguais, e suprime a diferença, gerando metafísicas assentadas em falsos problemas. Caudatário de forças reativas, que se colocam em primeiro lugar, faz com que essa reatividade elimine a primazia de suas forças agressivas – criadoras de novas direções. Nesses arranjos mecânicos, regulações, funções adaptativas, expressa o poder das forças dominadas; embora realize esforços continuados por mais potência – como vitória sobre si mesmo, tendência a subir, vontade de auto-superação. Por isso, é essencialmente mutável, princípio pelo qual a sua própria vida se supera. Como uma ficção convencional – mas dotada de um caráter de realidade –, vive um processo de formação, no qual a moralidade é o meio necessário para o seu amadurecimento enquanto indivíduo soberano. Então, livre, de vontade inabalável, prescinde da moral, libertase dos costumes, cria valores e organiza a exterioridade mediante a introdução de formas, que têm seu respaldo na interpretação e na avaliação. Como produto dessas ações, torna-se autônomo e supramoral. Desprendido das coordenadas sociais e do poder ordenador da lei, propugna um nada de teórico e de prático, e tudo pelo trágico, fazendo o mundo à sua medida e tendo o conhecimento do mundo que merece. Não se sabe se esse desterritorializado ainda pode ser chamado infantil, como um derivado da ação genérica da cultura; ou se terá chegado o momento, em que já não tem nenhuma importância chamar ou não chamar infantil àquilo que dele é dito e pensado. Deslocado no tempo, precipitado e ativado, tornado positivo e criador, não pode deixar de existir. Só que já não é mais ele mesmo... Desligado da falsa infância que nunca houve, faz proliferarem desejos, paixões e conexões com o campo social e político. De maneira a ser irremediavelmente multiplicado, enquanto condição da própria criação: “um novo começo, um jogo, uma roda que gira por si mesma, um movimento inicial, um sagrado dizer ‘sim’” (Nietzsche, s./d., p. 44).


Recebido em maio de 2005 e aprovado em julho de 2005.
Referência bibliográfica
NIETZSCHE, F.W. Assim falou Zaratustra. Um livro para todos e para ninguém. Trad. de Mário da Silva. São Paulo: Círculo do Livro, s/d.

Educ. Soc., Campinas, vol. 26, n. 93, p. 1205-1208, Set./Dez. 2005
Disponível em: <http://www.cedes.unicamp.br>
Fonte da imagem: servidorpublico.net

Corpo sem Órgãos

Entrevista com Félix Guattari

Contos Rizomáticos. Tecnologia do Blogger.
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