Gilles Deleuze
por Enrique Landgrave
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L’Aube: Deleuze, Hecceidade, Suscitar Acontecimentos

A pedido da Tânia, posto aqui esse texto que pode ser encontrado em meu Blog. Perdoe-me a demora, Tãnia, ando sem tempo para a internet. Com o retorno das aulas fica tudo mais complicado.

;)

Mais uma madrugada, mais pensamentos, ideias, que vêm e vão como relâmpagos dourados rasgando, insistentemente, a treva noturna; lutas, confrontos, angustias e alegrias… nas qualis os demônios cantam e vibram como se estivessem em grandiosas saturnálias, fazendo um barulho dos diabos.

Nesta madrugada insone e tortuosa – como costumam ser todas as madrugadas insones de pensadores de alma inquieta que encontram na insônia uma potência positiva para o pensamento -, pergunto-me: como impedir que o pensamento nos escape? Ah, como é triste e doloroso perder um pensamento! Quase enlouquecemos e, no entanto, estamos aqui, uma vez mais, para quem sabe ter uma ideia que fique, que persevere em nosso pensamento. Ideias que fulguram em nosso espírito – entendo espírito como cérebro – e que depois desaparecem. Um amor casual, efêmero, livre: elas [as ideias] vêm, nos arrebatam, e depois partem, for ever.

Encontrava-me sentado na frente do PC, lendo um artigo sobre o estatuto da Ética em Deleuze, pautado na leitura que Deleuze fizera da obra de Espinosa e de kafka. Antes disso, encontrava-me lendo um artigo qualquer – muito mal escrito – sobre o conceito de vontade de potência em Nietzsche. Notei, então, que muito das ideias que tinha enquanto lia esses textos desapareciam – costumo, sempre, sair do texto, dar grandes voltas, lançar-me à exploração de ilhas estranhas e secretas que o próprio texto, de algum modo, me dá acesso, para então retornar a ele, com um ânimo renovado. Queria que essas ideias não desaparecessem. Algumas delas eram muito boas, talvez me auxiliassem num escrito futuro… talvez…

O que fazer? Exasperamo-nos. Queremos agarrá-las mas falhamos, são demasiadamente escorregadias e velozes. Elas fogem. Deleuze, lendo Espinosa, observa que em relação às ideias, somo como autômatos espirituais: “é preferível dizer que são as idéias que se afirmam em nós do que dizer que somos nós que temos idéias”. Dizer que nós não temos ideia significa que as ideias são objeto de encontros independentes de uma formação subjetividade qualquer. As ideias nos afetam, diz-nos Espinosa; e isso é tão belo em Espinosa! Somos afetados, mas é preciso alertar para o fato de que o afeto não se define pela ideia, pela sucessão de ideias – por exemplo, quando passo da ideia de quente para a ideia de frio -, mas por um “regime de variação contínua” que encontrará os seus polos nas noções rigorosas de alegria e de tristeza; ideias, sempre selvagens, rebeldes… elas nunca se submetem à uma vontade intransigente de um suposto sujeito do pensamento (como queria Descartes e Kant).

Pensar é ter ideias – conceitos em filosofia; funções em ciência; afetos e perceptos em arte -, mas não se pensa segundo uma vontade: pensa-se por espasmos, por crises e abalos… só se pensa por violência (violência simbólica dos signos que nos atravessam e que independem de nossa vontade, de um sujeito dotado de consciência e de vontade). O que isso quer dizer? Quer dizer que é através dos encontros e dos acontecimentos que engendramos pensar no pensamento, que retiramos o pensamento do inatismo e do seu natural estupor. O pensamento, diz-nos Deleuze, é sempre a força de um involuntário, subvertendo a lógica do cogito cartesiano.

Solicitamos um pouco de ordem, ordem essa que nos protegeria do caos mental:

“Nada é mais doloroso, mais angustiante do que um pensamento que escapa a si mesmo, ideias que fogem, que desaparecem apenas esboçadas, já corroídas pelo esquecimento ou precipitadas em outras, que também não dominamos.” (DELEUZE & GUATTARI,  1992, p. 259)

Pedimos apenas que nossas ideias não se percam nesse caos mental que incessantemente espreita o pensamento e o ameaça lançar à imobilidade; que não nos escapem, que não se dissolvam, que não sejam como essas variabilidades infinitas nas quais coincidem sua aparição e desaparição. Pedimos, afinal, que elas sejam consistentes e que sua duração seja como aquela de uma obra de arte: que atravesse os séculos e as eras. Sem isso, mal seríamos capazes de escrever um post breve como este que vos escrevo.

Todavia, se o pensamento é esse força do involuntário, que chega, que invade nossa casa – o cérebro – sem nem mesmo bater na porta, não seria o caso de pensarmos que o seu desaparecimento tem a ver com essa involuntariedade do próprio ser do pensamento? Eis o que concluo: “entra quando quer, sai quando quer”. O filho rebelde, o filho ardiloso e embusteiro, mas que, todavia, amamos como todos os pais amorosos.

Mas, afinal, o que pensava eu ao escrever este post? Pensava que poderia compartilhar com meus leitores essa minha hecceidade: comunicar-lhes um pensamento “acontecimental”, afetar-lhes no âmago de seus corpos e de suas almas (o que, no fundo, dá no mesmo). Somos hecceidades, tão só hecceidades. É o que diz o filósofo. O que é uma madrugada como esta? É um modo de individuação que não se confunde com aquele de uma coisa ou de um sujeito. Falamos de um modo de individuação que antecede tanto aquilo a que damos o nome de objeto quanto aquilo que damos o nome de sujeito: pre-objetivo e pre-subjetivo. Não é difícil de entender. Elas [as hecceidades] apenas mudam algo em nós: nos faz entrar em devir. Fui impelido a escrever este texto. É pela força, pela “tirania” dos encontros e dos afetos, que escrevemos: somos arrastados à escrita, como que por uma correnteza de um rio feroz. É esse o meu alegre caso.

Enquanto escrevo, minhas ideias continuam fugindo, enquanto escrevo… tento… dar ordem ao caos e tornar possível o pensamento: traçando um plano de imanência que recorta o caos e lhe dá um sentido, uma consistência.



Bibliografia:

DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. O que é a filosofia? São Paulo: Ed. 34 Ltda. 1992.

2 comentários:

Tânia Marques disse...

Obrigada pela sua maravilhosa contribuição, Raony! Beijo grande!

Beatriz disse...

Palavras encantadoras, sempre!

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