Gilles Deleuze
por Enrique Landgrave
... linhas de fuga - devir - imanência - repetição - singularidade - corpo sem órgãos - sentido - plano - multiplicidades - diferença - sensações - arte - máquinas desejantes - intensidades - máquinas de guerra fluxos - rizoma - abecedário - hecceidades - escrileituras - educação - vida - literatura - performance ...

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Direito e imanência: o que é pensar a diferença?

Postado por Murilo Duarte Costa Corrêa, em A Navalha de Dalí. Texto republicado aqui mediante autorização.
Índice. I Imagens da Filosofia do Direito; II Signos e afectos: “aquilo que dá a pensar”; III A diferença à enésima potência; IV Notas; V Referência


Resumo. O presente texto é fruto da comunicação realizada na mesa “Direito e pós-estruturalismo”, do I Colóquio Baiano de Filosofia e Direito (“Direito e Filosofia: Conversações”), organizado pelo curso de Graduação em Direito da Universidade Católica de Salvador (UCSAL/BA). Partindo de uma breve cartografia da condição da Filosofia do Direito contemporânea, bem como de suas principais influências modernas, pretende-se elucidar uma via alternativa à Filosofia contemporânea do Direito baseada na filosofia da diferença e da crítica à representação que atravessam por toda a obra de Gilles Deleuze. Sem adiantar conclusões sobre a viabilidade da presente proposta à luz da Filosofia do Direito, o presente ensaio, de pequeno fôlego, afigura-se uma investida em direção à renovação do direito a partir de um pensamento da diferença. Trata-se, pois, de uma etapa antecedente e, no entanto, necessária, àquilo que – evocando uma tradição renegada pela Filosofia do Direito do ocidente – chamei outrora “Filosofia do Direito na imanência” ou, simplesmente, “Direito na Imanência".

Palavras-chave: Diferença; Pós-Estruturalismo; Direito; Pensamento.

mutante

Eu sou essa mutante, com essas tantas cores de faíscas brilhantes, que voam e aterrizam sobre meu corpo, sem sentido e sem razão. Não há como descrever essas cores que classificam e significam a minha emoção. Eu sou essa mutante sem destino predestinado, ao mesmo tempo em que misturo as cores do arco-íris, vejo o preto e o branco ao meu lado. Há uma certa estranheza que habita em mim. Nem sei com que cor devo me expressar. Sou essa mutante que tem a capacidade de mudar, sentir e experimentar. Essa certa estranheza expressa minha perplexidade e beleza. Tudo passa e transita pelo meu corpo, o belo e o feio se encontram e se misturam em mim, com sensação de movimento e vertigem.
Há um fluido, uma crise espontânea, talvez momentânea, que invade e modifica meu jeito de ser, minha personalidade. Penso que estamos sempre nessa mutação, procurando uma nova cor, um novo tempo, uma outra direção. Às vezes, posso estar confusa em um labirinto de cores e sabores, porque cada cor ou tonalidade exprime uma idéia, um comportamento, em sua expressividade. Olho e enxergo as cores, que criam vida dentro de mim. Essa arte, essa natureza fazem parte das minhas dúvidas e incertezas. É essa capacidade de criar e de me reinventar constantemente, que faz cada segundo da minha existência pintar com uma aquarela diferente. 

Elisa Riffel Pacheco
Psicopedagoga, professora de teatro, especialista em Pedagogia da Arte
elisapach@yahoo.com.br

O "castigo-pensador": de Supernanny a Rodin, em dez milissegundos

Post de Murilo Duarte Costa Corrêa, republicado aqui.









(Jo Frost, a Supernanny, em uma imagem com quilos de Photshop, e “o pensador”, de Rodin: pode não parecer, mas essa obra de arte foi inspirada em uma criancinha de castigo...)
Nunca comentei aqui, mas tenho horror ao Jornal Hoje. Mesmo assim, continuo assistindo – religiosamente -, porque acho interessante como ele funciona esquizofrenizando. A maior esquizóide de todas – uma esquizóide bipolar que vai da depressão à euforia histérica em dez milissegundos – é a ex-atriz e jornalista Sandra Annenberg; não é incomum assistir a coisas do tipo: ela anuncia com gravidade, franzindo o sobrolho: “Morrem mais três pessoas em um deslizamento de terra na região de Itaquera, na grande São Paulo”. Dez milissegundos..., e se abre um riso demente: “E o verão será dominado pelos tons de laranja – veja como a cor foi recebida nas rasteirinhas que prometem colorir a estação!” Graças às férias de fim de ano, ontem à tarde, quem estava “re”-presentando o telejornal era Rosana Jatobá. Menos bipolar, uma atriz menos escolada que Sandra.
Em meio às matérias ordinárias pequeno-burguesas pós-orgiásticas natalinas (férias, rodovia dos bandeirantes congestionada, como limpar a prataria usando limão e pasta dental, direitos do consumidor na troca dos presentes, liquidações de fim de ano), uma das matérias de destaque era sobre a educação das criancinhas pequenas; algo do gênero, “conheça o castigo-pensador e aposente a palmada”. Falando sobre o tema, uma psicóloga que provavelmente não tem filhos, e se os tem deve usar a palmada, que afirmava que a violência não se justifica de forma alguma (no moralista retorna o recalcado – bendito Freud!), e que da palmada ao espancamento se vai num contínuo quase involuntário – nem se percebe. Tudo muito bonito, muito libertário. Dar limites com explicações, “bater não educa, nem é um gesto de amor, é uma simples punição” etc.
Não bastasse, apresentaram o “castigo-pensador” – uma estratégia à la Supernanny (aquela terapeuta comportamental britânica que trata as crianças como camundongos com alma – dêem uma zapeada no GNT, que é um canal com público-alvo “feminino”, em que se podem encontrar desde reality shows com pequenos cães obesos com donos obesos, numa competição para ver quem perde mais gramas de suas dezenas de quilos de sobrepeso, até conversações (nada) inteligentes com Diogo Mainardi, que também perde (nosso) tempo escrevendo uma coluna (que ninguém lê) para a Veja).
Mas fiquemos no castigo-pensador. A jornalista pergunta a uma criança de uns quatro anos como é o tal castigo, ao que ela responde: “Ah, não pode deitar, nem brincar; tem que ficar sentado, fazendo nada... pensando”.
*
E desde quando pensar é castigo? Pior, desde quando pensar é fazer nada? Valeria um outro post para tentar compreender de que forma, hoje, os aparelhos disciplinares infantis são mobilizados para disciplinar o subjetivável, desmobilizar as potências do pensamento – a ponto de uma criança de quatro anos dizer que não faz nada, só pensa... como se pensar fosse algo muito natural, muito simples e inato, de que as aprendizes de supernannies brasileiras ou as apresentadoras lobotomizadas de telejornal da tarde pudessem ser capazes. Artaud, Proust e Deleuze escreveram sobre de que forma os signos violentam a pensar e a buscar a verdade – não há pensar sem violência (que não é física, mas simbólica – da mesma forma que uma palmada dificilmente é violência física, mas simbólica, medo de perder o amor dos pais, introjeção da má-consciência pela via familiar). Agora, o tal “castigo-pensador” vai além da palmada: introjeta a produção da má-consciência no próprio exercício do pensar niilista; de modo que o pequeno fica lá, isolado em seu cantinho: não pode deitar, nem brincar; fica lá fazendo nada, isto é, “pensando”...
Esse novo “castigo” faz algo semelhante ao que Nietzsche já identificara em nossos sistemas de justiça civilizados: por um golpe de gênio da moral (“é moralmente errado levantar a mão para um filho”, dizem os sacerdotes da psicologia contemporânea, que só não crêem ser errado tratar as crianças como camundongos, segundo o esquema estímulo-resposta/reforço/punição) se substitui um sistema de violência e de crueldade, de afectos, em que os signos se aplicavam ao corpo (o gesto da palmadinha, que não é nem inofensiva, nem antidisciplinar – não sejamos ingênuos) por um sistema educativo que, embora seja supostamente não-violento, identifica o pensar a uma inércia niilista e despede os pais de educarem os filhos: "vai lá pro seu cantinho; como você aprontou e já tem oito anos, vai perder oito minutos da sua infância... pensando!". O fato é que se educa cada vez menos para o pensamento, e agora, ainda transformam o tempo-consigo, necessário ao pensamento, em punição, em pedagogia barata de canal fechado.
Quem visse o pensador de Rodin, com todos os músculos do corpo retesados, violentados, como que prontos para a ação – embora a cabeça, apoiada sobre o punho cerrado, ainda estivesse voltada para um ponto fixo, no limiar indiscernível entre a interioridade da relação consigo e o ato: hesitando, exercitando o pensar como liberdade –, compreenderia que se, hoje, pensar virou uma estratégia de castigo e disciplina, uma forma de fazer com que todo empenho de tempo seja niilista (uma espécie de “fazer nada” como forma de administrar as condutas infantis), a única chance de sucesso dessa nova geração será a servidão e o automatismo – nunca a perfeição de uma ação verdadeiramente livre. Melhor para a Globo: não faltarão telespectadores - tampouco, apresentadores de telejornal.
Fonte: A Navalha de Dalí

Sobre o conceito de rizoma

por Murilo Duarte Costa Corrêa, do blog "A Navalha de Dalí"
Contrariando a lógica binária, que, segundo Deleuze e Guattari, seria a lógica da árvore-raiz, segundo a qual, em última análise, tudo seria remissível a uma forte unidade principal (um tronco que desce às origens da planta), os autores propõem, contra a racionalidade da lingüística, do estruturalismo e da informática, o rizoma. O rizoma é caracterizado segundo seis princípios: 1º e 2º. Princípios de conexão e heterogeneidade: “Qualquer ponto de um rizoma pode ser conectado a qualquer outro e deve sê-lo”; 3º. Princípio da multiplicidade, segundo o qual “é somente quando o múltiplo é efetivamente tratado como substantivo, multiplicidade, que ele não tem mais relação nenhuma com uno como sujeito ou como objeto, como realidade natural ou espiritual, como imagem e mundo. As multiplicidades são rizomáticas e denunciam as pseudomultiplicidades arborescecntes”; 4º. Princípio de ruptura a-significante, “contra os cortes demasiado significantes que separam as estruturas, ou que atravessam uma estrutura. Um rizoma pode ser rompido, quebrado em qualquer lugar, e também retoma segundo uma ou outra de suas linhas e segundo outras linhas”; 5º e 6º. Princípio da cartografia e da decalcomania: “um rizoma não pode ser justificado por nenhum modelo estrutural ou gerativo. Ele é estranho a qualquer idéia de eixo genético ou de estrutura profunda”. Para Deleuze e Guattari, “Toda lógica da árvore é uma lógica do decalque e da reprodução. (...). A árvore articula e hierarquiza os decalques, os decalques são como folhas da árvore. Diferente é o rizoma, mapa e não decalque. (...). O mapa é aberto, conectável, reversível, suscetível de receber modificações constantemente. Ele pode ser rasgado, revertido, adaptar-se a montagens de qualquer natureza, ser preparado por um indivíduo, um grupo, uma formação social. (...). Um mapa tem múltiplas entradas contrariamente ao decalque que volta sempre ‘ao mesmo’.”

reticências



escrever, escrever, escrever, escrever, ponto
escrever mais, escrever mais, escrever mais, ponto mais
desenhar palavras, desenhar palavras, desenhar ponto
escrever ponto, desenhar ponto mais
pontuar palavras, pontuar desenhos
ponto escrito
ponto desenhado
ponto pontuado mais
sem ponto
com escrita
com desenho
três pontos...

Tânia Marques  09 de julho de 2011

traços

grotescas simbologias
redemoinhos de palavras
de cores
de traços
labirinto poético
desterritorialização de intensidades
envolvimento sintético
poesia eclética
sinestesia
atuações
subjetivações
transcendências fugazes

Tânia Marques 08 de julho de 2011

enigma


.linhas retas
estradas tortuosas
paragens outras diferentes
ausência de cores
sabores
um jeito geo-gráfico de ser
ruptura
desorganização molecular
instantes fugazes
lembranças
centralizações
memórias fugidias
dureza que sustenta
gestos que rebatem
dissolvição de ideias
diluição da vida.

Tânia Marques 07 de julho de 2011

Fonte da  imagem: googlediscovery.com

Uma obra de arte

                                                                   Romero Britto

Quando eu faço arte...
Desperta em mim
Uma inspiração
Que eu não sei
Se vem do cérebro ou do coração!
Quando eu faço arte...
Eu dou sentido a minha métrica
Coloco meus sentimentos em voga
Valorizo minha autoria, minha moda!
Quando eu faço arte...
Há em mim
Uma reflexão
Que sensibiliza que altera
Meu pensamento, minha percepção!
A arte dinamiza meus sentidos, minha visão
Ela faz meu espírito
Adquirir um novo brilho,
Uma nova concepção!
A arte provoca desejo, sabedoria,
Reação
Ela se transcende à luz da razão!
Quando eu faço arte...
Eu integro meu conhecimento
A minha imaginação,
Eu misturo conceitos, versos, rimas e
Emoção!
Quando eu faço arte...
Eu sinto amor e ternura
Mas não me prendo a um modelo, a
Uma cultura!
Para poder criar
É preciso ser livre, espontâneo,
Sem limites, sem censura!
Quando eu faço arte...
Eu brinco de ser artista
Meu corpo, meu psique se modificam,
Sou mais sensível, alegre e otimista!
Quando eu faço arte...
Eu aprecio a estética da vida
Sonho, viajo...
Admiro flores, essência e cores
Para ter minha poiética constituída!”

Elisa Riffel Pacheco
Psicopedagoga, professora de teatro, especialista em Pedagogia da Arte
elisapach@yahoo.com.br


Porto Alegre, 23 de Outubro de 2010

artistar

Corpos desenham seus espaços
Contagiam seus desejos
Libertam suas cores
Psicodélicos momentos
De gritos fantásticos
Magias noturnas
Pensamentos nômades
Moléculas de criação
Reflexões transcendentes
Abstrações marginais
Devires-revolucionários
Gozo dicotômico
Mística cósmica
Era de Aquário
Multifacetada de prazeres
Verdade esfacelada
Linha indiscernível
Combinações sinestésicas
Ética não-fascista
Afeto potencial
Pensar abre o mundo
Pensar o mundo sem amarras
Currículo-aventureiro na educação
Artistar a vida em movimento
Viver os devires de Deleuze:
Vida não-submissa a modelos
“O pensamento sem imagem
É o pensamento que se libera
Das imagens que o aprisionam”.

Tânia Marques 03/01/2010

Fonte de inspiração:
Leitura: A Filosofia da Diferença -Gilles Deleuze 
Fonte da imagem:
noboteco.wordpress.com/2009/02/

Pensamento:
"Os modos de vida inspiram maneiras de pensar,
os modos de pensar criam maneiras de viver." 
Gilles Deleuze

infinitamente caótico

no caos imediato
a vida desintegra-se
partículas estilhaçam-se
tudo-interligado
a desordem em círculo
conectam-se esferas siderais
para mais um dia
com afirmações e negações

Tânia Marques    
20 de novembro de 2010

Imagem:  
Waldemar Cordeiro, Idéia visível (Visible Idea), 1956
Acrylic on masonite, 59.9 x 60cm 
http://www.minusspace.com/tag/waldemar-cordeiro/

inventando um poema

um passo, dois, três. caminho e a minha orientação ao andar é dada pelas imagens que produzem palavras sinestésicas. mas não me interessam as palavras agora, quero as imagens desterritorializadas da gramática impositiva, quero uma língua de imagens que me faça vibrar em outras intensidades. sou poesia, sou imagem poética, não sou profética, quero fugir do lugar-comum, quero apenas inventar um poema que me deixe passar livremente.

Tânia Marques 04/04/2010


Fonte da imagem original:

O que pode a escritura?

a escritura pode tudo ou nada?
com ou sem sentido se escreve?
é possível um registro
descarregado de ideias?
vazio de conexões,
ausente de sentimentos,
sem um "eu" sobrepondo-se a outros "eus"?
era uma vez... um eu-passarinho liberto
do vício de te chamar
entre lírios e emoções
de poema sujeitado,
subjugado a dores e paixões.

Tânia Marques 15 de junho de 2011

Fonte da imagem: icmc.usp.br

Descrição como leitura de imagem


A cidade está calma. O dia parece cansado e sonolento. À nossa frente, fazem-se presentes grandes edifícios e um amontoado de casas tristes. Cidade grande, parafernália de fios de alta tensão, chaminés, prédios antigos, poluição. O silêncio entre nós dois denuncia a nossa solidão. Não conseguimos nos olhar, estamos virados para lados opostos, contemplamos vistas e objetivos diferentes. Percebo que você está pensativo, com as mãos para trás, uma agarrada na outra. Você está com a mesma roupa de anteontem. Seu olhar é vago, completamente reticente. Eu não me ponho indiferente a tudo isso. Permaneço ansiosa, quase aflita. Percebo que há uma comunicação velada entre nós. Ao mesmo tempo, procuro fugir de você. É estranho, sinto uma vontade imensa de ficar bem na sua frente, mas não consigo, alguma coisa me impele para o outro lado. Constato que, no muro do pátio da casa onde estamos, os ouriços inoxidáveis de proteção contra ladrões deixam-me ainda mais infeliz. Horrenda essa sensação que toma conta de mim: o isolamento interior comparado às farpas do arame que se encontra à minha frente. O porquê de tudo isso eu pergunto a mim mesma. Tento encontrar uma explicação, eu absorvo-me na paisagem nada contemplativa. Vejo edifícios em construção, outros tantos sujos pelo dióxido de carbono dos veículos; escuto o fim de tarde, mas não me convenço totalmente da nossa separação. O céu está sem nuvens, e eu, cheia de esperanças. Definitivamente, você permanece mudo, calado totalmente, não está presente em minha vida. Desorientei-me ainda mais agora. Não sei o que faço...

Tânia Marques

Excertos de Clarice Lispector


Dá-me a tua mão
"Dá-me a tua mão: Vou agora te contar como entrei no inexpressivo que sempre foi a minha busca cega e secreta. De como entrei naquilo que existe entre o número um e o número dois, de como vi a linha de mistério e fogo, e que é linha sub-reptícia. Entre duas notas de música existe uma nota, entre dois fatos existe um fato, entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam existe um intervalo de espaço, existe um sentir que é entre o sentir - nos interstícios da matéria primordial está a linha de mistério e fogo que é a respiração do mundo, e a respiração contínua do mundo é aquilo que ouvimos e chamamos de silêncio".
...
"...Quanto a mim tenho que lhes dizer que as estrelas são os olhos de Deus vigiando para que tudo corra bem. Para sempre... E, como se sabe...para sempre não acaba nunca ..."
...
O milagre das folhas
"Estou andando pela rua e do vento me cai uma folha exatamente nos cabelos. A incidência da linha de milhões de folhas transformadas em uma única, e de milhões de pessoas a incidência de reduzi-las a mim. Isso me acontece tantas vezes que passei a me considerar modestamente a escolhida das folhas. Com gestos furtivos tiro a folha dos cabelos e guardo-a na bolsa, como o mais diminuto diamante. Até que um dia, abrindo a bolsa, encontro entre os objetos a folha seca, engelhada, morta. Jogo-a fora: não me interessa fetiche morto como lembrança. E também porque sei que novas folhas coincidirão comigo. Um dia uma folha me bateu nos cílios. Achei Deus de uma grande delicadeza."
...
"A prova de que estou recuperando a saúde mental, é que estou cada minuto mais permissiva: eu me permito mais liberdade e mais experiências. E aceito o acaso. Anseio pelo que ainda não experimentei. Maior espaço psíquico. Estou felizmente mais doida".
...
"Eram algumas rosas perfeitas, várias no mesmo talo.Em algum momento tinham trepado com ligeira avidez, umas sobre as outras mas depois, o jogo feito, haviam se imobilizado tranquilas. Eram algumas rosas perfeitas na sua miudez,não de todo desabrochadase o tom rosa era quase branco.Parecem até artificiais! Disse com surpresa. Poderiam dar a impressão de brancas se estivessem totalmente abertas mas, com as pétalas centrais enrodilhadas em botão, a cor se concentrava e como num lóbulo de orelha, sentia-se o rubor circular dentro delas. Como são lindas, pensou Laura surpreendida. Mas, sem saber por que, estava um pouco constrangida, um pouco perturbada. Oh, nada demais, apenas acontecia que a beleza extrema incomodava."
...
"Não quero tera terrível limitaçãode quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero uma verdade inventada."
...
"A percepção de que o tempo está passando é, ao mesmo tempo, maravilhosa e assustadora. O devir causa-me a angustiosa pretensão de fazer com que a vida adquira um sentido sempre interessante...
Mas é a vida em si tão absurda e tão intensamente inacreditável que me inquieta! A vida que teima em surgir em vários espaços... a vida que teima em renascer continuamente... a vida que se afirma contra a força da destruição e da morte...a vida que também pulsa em mim!"
...
“E eis que sinto que em breve nos separaremos. Minha verdade espantada é que eu sempre estive só de ti e não sabia. Agora sei: sou só. Eu e minha liberdade que não sei usar. Grande responsabilidade da solidão. Quanto a mim assumo minha solidão. Que às vezes se extasia como diante de fogos de artifício. Sou só e tenho que viver uma certa glória íntima que na solidão pode se tornar dor. E a dor, silêncio.
Guardo o seu nome em segredo. Preciso de segredos para viver.”
...
"Se...o mundo não fosse humano, também haveria lugar para mim: eu seria uma mancha difusa de instintos, doçuras e ferocidades, uma trêmula irradiação de paz e luta."
...
"As palavras me antecedem e ultrapassam, elas me tentam e me modificam, e se não tomo cuidado será tarde demais: as coisas serão ditas sem eu as ter dito."
...
“...Existe um ser que mora dentro de mim como se fosse a casa dele, e é. E trata-se de um cavalo negro e lustroso que apesar de inteiramente selvagem – pois nunca morou antes em ninguém nem jamais lhe puseram rédeas nem selas – apesar de inteiramente selvagem tem por isso mesmo uma doçura primeira de quem não tem medo...”
...
"Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida. Mas antes da pré-história havia a pré-história da pré história e havia o nunca e havia o sim. Sempre houve. Não sei o que, mas sei que o universo jamais começou". (Clarisse Lispector - A hora da estrela)
...
"Sou composta por urgências: minhas alegrias são intensas, minhas tristezas são absolutas. Me entupo de ausências, me esvazio de excessos. Eu não caibo no estreito, eu só vivo nos extremos".
...
"Já entrei contigo em comunicação tão forte que deixei de existir sendo. Tu tornaste um eu. É tão difícil falar e dizer coisas que nunca podem ser ditas. É tão silencioso. Como traduzir o silêncio do encontro real, entre nós dois? Dificílimo contar: olhei para você fixamente por uns instantes. Tais momentos são meu segredo. Houve o que se chama de comunhão perfeita. Eu chamo isso de estado agudo de felicidade."
...
"Dentro de mim morreram muitos tigres. Mas os que sobreviveram estão livres."
...
"Não posso escrever enquanto estou ansiosa ou espero soluções porque em tais períodos faço tudo para que as horas passem: e escrever é prolongar o tempo, é dividi-lo em partículas de segundos, dando a cada uma delas uma vida insubstituível."
...
"Meu tema é o instante? Meu tema de vida. Procuro estar a par dele, divido-me milhares de vezes em tantas vezes quanto os instantes que decorrem, fragmentária que sou e precários os momentos - só me comprometo com vida que nasça com o tempo e com ele cresça: só no tempo há espaço para mim".
...
“É curioso como não sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem, mas não posso dizer. Sobretudo tenho medo de dizer porque no momento em que tento falar não só não exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo.”
...
 "Que minha solidão me sirva de companhia. que eu tenha a coragem de me enfrentar. que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo."

"...há impossibilidade de ser além do que se é -no entanto eu me ultrapasso mesmo sem o delírio, sou mais do que eu, quase normalmente - tenho um corpo e tudo que eu fizer é continuação de meu começo...a única verdade é que vivo. Sinceramente, eu vivo. Quem sou? Bem, isso já é demais...."
...
A lucidez perigosa
"Estou sentindo uma clareza tão grande que me anula como pessoa atual e comum: é uma lucidez vazia, como explicar? Assim como um cálculo matemático perfeito do qual, no entanto, não se precise. Estou por assim dizer vendo claramente o vazio. E nem entendo aquilo que entendo: pois estou infinitamente maior que eu mesma, e não me alcanço. Além do que: que faço dessa lucidez? Sei também que esta minha lucidez pode-se tornar o inferno humano - já me aconteceu antes. Pois sei que - em termos de nossa diária e permanente acomodação resignada à irrealidade - essa clareza de realidade é um risco. Apagai, pois, minha flama, Deus, porque ela não me serve para viver os dias. Ajudai-me a de novo consistir dos modos possíveis. Eu consisto, eu consisto, amém".
...
"Enquanto eu tiver perguntas e não houver respostas continuarei a escrever."
...
"Oh Deus, eu que faço concorrência a mim mesma. Me detesto. Felizmente os outros gostam de mim. É uma tranqüilidade."
...
"O cacto é cheio de raiva com os dedos todos retorcidos e é impossível acarinhá-lo. Ele te odeia em cada espinho espetado porque dói-lhe no corpo esse mesmo espinho cuja primeira espetada foi na sua própria grossa carne. Mas pode-se cortá-lo em pedaços e chupar-lhe a áspera seiva: leite de mãe severa."
...
"Isto não é um lamento. É um grito de ave de rapina, irisada e intranqüila."
...
"Não é que vivo em eterna mutação, com novas adaptações a meu renovado viver e nunca chego ao fim de cada um dos modos de existir. Vivo de esboços não acabados e vacilantes. Mas equilibro-me como posso, entre mim e eu, entre mim e os homens, entre mim e o Deus."
...
"Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa. Não altera em nada... Porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas. A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro..."
...
"Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que, por admiração, se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos"!
...
"Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos".
...
"Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria e peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos!"
...
"A violeta é introvertida e sua introspecção é profunda.Dizem que se esconde por modéstia. Não é. Esconde-se para poder captar o próprio segredo.Seu quase-não-perfume é glória abafada mas exige da gente que o busque. Não grita nunca o seu perfume. Violeta diz levezas que não se podem dizer".
...
"Aceitar-me plenamente? É uma violentação de minha vida. Cada mudança, cada projeto novo causa espanto:meu coração está espantado. É por isso que toda minha palavra tem um coração onde circula sangue." (Um sopro de vida, Clarice Lispector)
...
"Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo."
...
"Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: Quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida."
Clarice Lispector

Fonte: Excertos enviados por e-mail por Patrícia Dalarosa

A estética deleuzeana

e nascerá...
um sopro de inspiração consciente
uma vida numa antilógica burguesa
uma educação ético-estética que romperá
a primazia do “ter” sobre o “ser”
e seremos mais contemplativos
menos prisioneiros
mais arteiros
feiticeiros das palavras

e crescerão...
mil possibilidades da existência humana
a partir da sensibilidade e da criatividade,
destruindo a lógica capitalista:
excludente, fascista e fatidicamente cruel
perversamente “correta”
discursivamente autoritária
imperativamente linguística

e viverão...
hedonisticamente em comunhão
todos aqueles que lutarem
persistentemente pela libertação
das normas
das regras e das exceções
da sintaxe
das amarras do não-porvir
em nome da precisão

terão eles
teremos nós
o prazer de ler, o desejo de escrever e a vontade de registrar
tão belas, as sensações sentidas
tão caótica, a ordem celestial
tão feroz, a fuga da prisão gramatical

após partir para o infinito,
da vida como matéria
surgirão efeitos delirantes
para reinventar a linguagem
sem paradigmas articulados
sem frases feitas, sem minorias
sem limites sintáticos, sem maiorias
tudo isso, e tanto mais, em nome
de uma nova operação poética:
a estética deleuzeana

Tânia Marques 03 de abril de 2010
Contos Rizomáticos. Tecnologia do Blogger.
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